Inteligência Competitiva: uma necessidade no mundo globalizado
Jorge Bessa *
INTRODUÇÃO
O mundo dos negócios é um setor extremamente competitivo. Cada empresa busca obter vantagens sobre as outras buscando sobreviver. Até recentemente, muitas empresas se utilizavam de meios ilegais para furtar segredos comerciais de suas concorrentes. Hoje, os empresários podem se valer da Inteligência Competitiva - IC para obter as informações desejadas sobre o seu concorrente sem recorrer a meios inescrupulosos ou ilegais.
A INTELIGÊNCIA COMPETITIVA
A essência da Inteligência Competitiva é coletar dados e deles extrair informações úteis. Um aspecto fundamental no mundo dos negócios é conhecer o mercado e o concorrente. Neste sentido a utilização da Inteligência permite às empresas, de forma legal e eticamente, identificar os componentes-chaves e as estratégias do seu competidor. Ao mesmo tempo, a Contra-Inteligência- segmento da atividade de Inteligência voltada para a segurança- pode auxiliar a salvaguardar os segredos comerciais e demais dados considerados sigilosos.
O foco principal da IC é analisar as características e atividades do concorrente no mercado, focalizando-se nas informações que nos dizem onde e como desenvolver estratégias de ataque ou defesa, objetivo fundamental e vital para o sucesso nos negócios no mundo globalizado. Além disso, cabe à IC realizar estudos para antecipar possíveis mudanças no mercado, descobrir novos e potenciais concorrentes e se manter atualizado sobre novas tecnologias, produtos e processos, bem como mudanças políticas, legislativas e regulatórias que possam afetar os negócios da empresa.
Geralmente, todos os dados necessários à realização de uma boa análise de Inteligência encontram-se disponíveis, bastando apenas que se conte com o concurso de analistas treinados em IC para acessar essas informações e transforma-las em um produto acabado - A Inteligência - a ser difundida em tempo hábil para o escalão decisório da empresa. É esse processamento especial chamado de - O Ciclo da Inteligência - que confere valor agregado às informações, transformando-as em um bem para a empresa.
É a análise da IC que vai permitir identificar os fatores-chaves e as estratégias do oponente e que são necessárias à organização para orientar o processo decisório e o planejamento estratégico.
É através da combinação de habilidades cognitivas e meta-cognitivas que os analistas treinados em IC estarão aptos a extrair o máximo possível de pequenos dados e informações, separando o que é realmente do irrelevante, procurando desvelar o significado real do que é somente aparente, enfim, produzindo conhecimento útil para a organização.
Uma das conseqüências que vem se verificando com o incremento na utilização da IC em países como os Estados Unidos da América e a Inglaterra é o aumento das medidas para combater a busca dos dados estratégicos de nossa empresa pelas organizações adversárias. Tais medidas recebem o nome de Contra-Inteligência, que pode ser definida como um ramo da Inteligência e da segurança responsável por identificar, conter ou destruir a eficácia da IC adversária, protegendo os conhecimentos estratégicos contra a espionagem ou protegendo as instalações, equipamentos e materiais contra a sabotagem.
Sinteticamente, podemos dizer que compete à Contra-Inteligência avaliar a capacidade e intenções da Inteligência adversária, avaliar as suas próprias vulnerabilidades em relação ao esforço de coleta adversária e avaliar a sua competência em conter e tornar inócuos os esforços do nosso oponente. A criação de uma mentalidade de segurança entre os funcionários, gerando a divisão compartilhada de responsabilidade, aliada ao exercício permanente de medidas de Contra-Inteligência restringirão as possibilidades da IC adversária penetrar nos nossos segredos.
Assim, Inteligência e a Contra-Inteligência são faces da mesma moeda, aparecendo a primeira como um parceiro natural e necessário da segunda.
Outro instrumento bastante utilizado na Guerra Econômica é a desinformação - informação "fabricada" de acordo com os interesses de quem a formula visando enganar, iludir ou confundir alguém para que se comporte, de acordo com um determinado padrão desejado. A desinformação é utilizada para neutralizar as atividades de IC do competidor revertendo a vantagem em proveito da nossa organização.
A necessidade de atuar com conhecimentos antecipados e protegera própria informação no mercado competitivo tem levado várias empresas de primeira linha a implementarem em suas organizações a função de especialista em IC. Tal foi o caso da Microsoft, British Royal Mail, IBM, Umisys, 3M, British Telecom, Saudi Internatruional Bank, entre outras. Além disso, foi constatado que dentre as 500 empresas listadas na FORBES, 55% tinham criado o setor de IC e o utilizavam na formulação de suas estratégias comerciais.Cada empresa era líder no seu setor.
De acordo com uma pesquisa realizada por Bernard Jaworski e Liang Chee Wee, patrocinada pela Sociedade dos Profissionais de Inteligência Competitiva foi constatado que as empresa que se utilizam da IC em níveis elevados demonstram, em comparação às empresas que fazem pouco uso da IC:
- 37% de níveis mais elevados de qualidade de produto;
- 36% de níveis mais elevados de qualidade em planejamento estratégico; e
- 50% de níveis mais elevados de conhecimento de mercado.
A implementação de um setor de IC requer uma nova cultura nas organizações. É fundamental que a alta gerência considere a Inteligência como
- um ativo da empresa e o suporte fundamental em todo o processo da decisão;
- um elemento vital para o negócio, considerando-se que o seu custo é muito inferior aos resultados obtidos ou aos prejuízos de se estar desinformado.
O tamanho de um setor de IC vai depender das atribuições estabelecidas e das demandas por conhecimentos necessários ao processo decisório. Como condição fundamental, é necessário que as pessoas que forem atuar nessa área recebam treinamento básico sobre Inteligência e Contra-Inteligência, incluindo o estudo de métodos, procedimentos e técnicas aplicadas no processo de administração estratégica, abrangendo todas as suas fases e etapas, que vão desde a transformação do dado em informação e desta em Inteligência, bem como o uso da IC como instrumento para a decisão estratégica.
Diferentemente do que se possa imaginar, o custo de criação e manutenção de um setor de IC dentro da empresa é bastante baixo quando comparado com os resultados que ela pode proporcionar. Neste sentido é fundamental que o analista de Inteligência saiba utilizar a tecnologia da informação, principalmente a Internet, haja vista o grande número de informações disponibilizadas e a baixo custo.
De acordo como Annual Report to Congress for Foreign Economic Collection and Industrial Espionage, publicado pelo National Counterintelligence Center, os setores que se constituem em alvos prioritários da espionagem internacional no Estados Unidos são: biotecnologia, aeroespacial, defesa, telecomunicações, tecnologia dos computadores e pesquisas de energia. Os mesmos setores também devem ser alvos prioritários no Brasil. Segundo dados da American Society for Industrial Security, coletados entre 325companhias norte-americanas, o potencial de perdas com a espionagem atinge um total de 14 bilhões de dólares por ano. No Brasil, apesar de não existirem dados seguros sobre essas perdas, estima-se que sejam bastante elevadas.
De acordo com dados da Subsecretaria de Inteligência da Casa Militar da Presidência da República, responsável pela Contra-Espionagem em território nacional, é grande o número de agentes estrangeiros atuando no país tanto em proveito de seus governos como de empresas. Por tudo isso é que se considera a criação de um setor responsável pela Inteligência Competitiva dentro das empresas como uma medida absolutamente necessária como forma de assegurar o sucesso nos negócios e evitar as surpresas competitivas que podem ameaçar o crescimento ou mesmo a permanência dessas empresas no mercado.
* Jorge da Silva Bessa, 49 anos, é especialista com mais de 25 anos dedicados à área de Contra-Inteligência. Chefiou a Coordenação de Contra-Espionagem e a Coordenação Geral de Contra-Inteligência da ABIN. No momento realiza consultorias, cursos e palestras para diversas organizações, e está concluindo um livro sobre espionagem internacional e Inteligência.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário